Guardianes de la noche, Serguéi Lukyanenko

•November 15, 2008 • Leave a Comment

Guardiões da Noite saiu na Rússia em 1998, ano da crise financeira russa que teve reflexos no mundo todo. Foi um best-seller na casa de um milhão de cópias por lá. Em 2004, foi adaptado para o cinema e ganhou novo fôlego mundial, sendo traduzido para diversos países. O Brasil não foi um deles. Comprei o livro em espanhol, editado pela Plaza Janes. Excelente edição, confortável de ler.

O protagonista de Guardiões da Noite é Antón, um mago da Guarda Noturna, por isso un Guardián de la noche. Ele é um Outro, como são chamados os humanos que percebem que existe algo além do comum, que têm dons mágicos e podem entrar no Crepúsculo e ver as coisas como realmente são. Quando um Outro é descoberto, ele precisa decidir se atuará pela Luz ou das Trevas. O estado de espírito do Outro no momento do seu primeiro contato com o Crepúsculo é fundamental nessa escolha. Medo e raiva ajudam o pêndulo a tender para as trevas, por exemplo. Os vampiros, seguindo o modelo clássico, servem às trevas. Como existe um pacto entre a Guarda Noturna e Diurna, eles não podem morder quem bem entendem. Existe uma taxa mensal de mordidas liberadas e controle até com selo de garantia. Nem o mundo mágico escapa da burocracia. Já metamorfos podem servir aos dois lados. Um dos mais interessantes do livro se chama Tigrecito e obviamente se transforma em tigre. Ele é um dos mocinhos, na verdade mocinha. Apesar da ampla variedade de criaturas, o foco são os magos e feiticeiros, muito velhos e poderosos.

Guardiões da Noite não mostra exatamente uma luta entre o bem e o mal. A Guarda Noturna e Diurna se vigiam mutuamente para manter um equilíbrio, e os dois lados são cheios de artimanhas, o que faz da área cinza um grande tabuleiro de xadrez. Nada impede que o protagonista Antón seja amigo de dois jovens das trevas, ou que o chefe da luz manipule as situações em causa própria. Esse limite tênue ajuda a compor o charme do livro. Guardiões da Noite é dividido em três unidades, que funcionam como novelas com início meio e fim.

A primeira é muito divertida, tem muito humor aproveitando o sabor de novidade e uma apresentação cheia de “efeitos especiais” para deixar claro o que cada personagem pode fazer. A segunda tem algo de Agatha Cristhie. Ao mesmo tempo em que tenta provar sua inocência, Antón precisa encontrar o verdadeiro autor de uma série de assassinatos, um Outro da Luz que se acha um cavaleiro vingador e sai matando todos os Tenebrosos que vê pela frente. O problema é que isso não é permitido e a maioria dos Tenebrosos têm famílias inocentes que sofrem com as mortes. A terceira é muito filosófica. Sai a ação, entram a conversa e os dilemas morais do protagonista, que não sabe mais se é um legítimo representante da Luz. Seria interessante se não coincidisse com o clímax do livro, o que me deixou meio cansado em um momento em que precisava de adrenalina.

Em comum às três:

1. Além do mistério da história há sempre algo mais para ser entendido, como se o personagem e o leitor precisassem decifrar o destino maior a partir de ações ordinárias.

Lukyanenko é um bom criador de personagens. É difícil ter antipatia pelo mal ou confiar totalmente no bem. Exceto por alguns momentos desnecessários de blá-blá-blá, o texto flui rápido. Só faltou mesmo o momento “uau” na história. A impressão no fim das contas é que o livro serviu como um grande trailer para o restante da série (o quarto livro saiu recentemente). Estou curioso pelos próximos, que já estão aqui, mas certamente lerei algo diferente antes.

Hell to pay, Simon Green

•November 3, 2008 • Leave a Comment

Hell to Pay vem com um comentário de Jim Butcher na capa: “A macabre and thoroughly entertaining world”. De curioso, descobri que o mesmo comentário aparece em todos os livros da série Nightside do autor, o que torna o valor do comentário nulo. Dito isso, Hell to pay é uma Dark Fantasy, um mundo totalmente inventado chamado Nightside onde vão parar personagens reais e ficcionais, do passado e do futuro, sugados por fendas dimensionais. Você pode esbarrar com a Super Máquina e com o Drácula, por exemplo. Tudo com muito humor. Se há um ponto forte no livro, é a mitologia muito bem montada. Plantas carnívoras gigantes, árvores psicopatas, é possível encontrar de tudo no Nightside. Mesmo.
Hell to pay conta a história do detetive John Taylor. Ele tem um dom e pode achar o que quiser em qualquer lugar, teleportando coisas como a luz do sol e tempestades. Quando a neta de um imortal (vampiro? demônio? suspense.) poderoso desaparece, ele é chamado para investigar. Mas um poder maior fecha seu terceiro olho e ele precisa investigar o sumiço do modo tradicional, batendo de porta em porta e arrancando informações dos suspeitos. Gostei muito das sutilezas dos personagens, o modo como Simon Green trata o tédio da imortalidade (e o modo de fugir dele) realmente funciona. Os personagens no começo parecem totalmente fúteis, depois vão ganhando complexidade. Alguns cenários também chamam bastante atenção, como um bar de drag queens que parece ter vindo de um filme do Cameron Mitchell. Por outro lado, a história é muito prática. Toda cena acaba com uma ação, briga ou um personagem aparecendo do nada para levar o protagonista até o próximo cenário. E assim segue, como em um jogo, até o final, que foi um pouco óbvio para mim. Esse é o sétimo livro da série. Não sei se dei azar de começar por ele. Como estou com o Sharper Than a Serpent’s Tooth para ler, talvez tire essa impressão de fórmula pronta. Até lá, continuo indicando Jim Butcher, Lilith Saintcrown e Rob Thurman.

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Hell to Pay comes with a comment from Jim Butcher on its cover “A macabre and thoroughly entertaining world”. Curious, I found out that the same comment appears on all books of the author’s Nightside series, which makes the comment worthless. That being said, Hell to Pay is Dark Fantasy, a completely made-up world called nightside where real and fictional characters go, from the past and fromt he future, sucked by dimensional breaches. You could run into Super Machine or Dracula, for instance. All sprinkled with humor. If there is a strong suit about the book is that the concepts are well developed. Giant flesh-eating plants, psychopatic trees, you can find anything in Nightside. Really.
Hell to Pay talks about the story of detective John Taylor, he has a gift and can find anything he want anywhere, teleporting things like the light of the sun and storms. When the granddaughter of a powerful immortal (vampire? Demon? Drum-roll) disappears, he is called in to investigate. But a stronger power closes his third eye and he needs to investigate the vanishing in a traditional way, knocking on door to door and extracting information from suspects. I liked a lot about the subtle detailes of characters, the way Simon Green handles the boredom of immortality (and how to escape from it) really works. The characters at start seem very shallow, but gain complexity over time.
Some scenarios draw a lot of attention too, like the drag queen bar that seems to come straight out of a movie by Cameron Mitchell. On the other hand, the story is very simple. Every scene ends up with an action, a fight or a character appearing out of nowhere to take the main character to the next scenario. And so it goes, like in a game, until the end, which was a bit obvious to me. This is the seventh book in the series. I’m not sure if I was unlucky to start with it. I have Sharper Than a Serpent’s Tooth to read, maybe that will remove this impression of a ready-made formula. Until then, I’ll keep recommending Jim Butcher, Lilith Saintcrown and Rob Thurman.

Areia nos dentes, Antônio Xerxenesky

•October 24, 2008 • 1 Comment

Areia nos Dentes é a estréia de Antônio Xerxenesky nos romances. E ele escancarou as portas do saloon apostando em um faroeste com zumbis. Eles fazem uma participação especial, bem no final, levando o descolamento da realidade ao máximo, mordendo todo mundo. Coisa de louco, no bom sentido. O livro é cheio de humor, com referências a várias cenas clássicas de faroeste, no maior clima pastiche. Tem famílias rivais, xerife, prostitutas e alguns mistérios para seguir. É um livro para se divertir, leitura rápida, que também brinca com linguagem dividindo a página ao meio, mudando a ordem das letras, transformando-se em roteiro. Se os próximos lançamentos da Não-editora seguirem esse espírito, a coisa vai longe.

Minha resenha.

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Areia nos dentes (Sand in the Teeth) is Antônio Xerxenesky’s first novel. And he opened wide the saloon doors, investing in a wild west with zombies. They do a special appearance, right at the end, taking the disconnection from reality to the maximum, biting everybody. Crazy in a good sense. The book is filled with humor, with references to many classical wild west scenes, in a kind of pastiche. It has rival families, a sheriff, prostitutes and some mysteries to follow. It is a book for amusement, quick reading, which also plays with language by dividing the page in half, changing the order of the letters, making them into script. If the next launches of the Não-editora publishing company keep this up, it will go far.

Pontos de vista de um palhaço, Heinrich Böll

•October 18, 2008 • Leave a Comment

Heinrich Böll faz parte da minha lista de leituras obrigatórias. Só o conheci recentemente quando a Estação Liberdade lançou O Anjo Silencioso, relato da Alemanha zero-hora. Pontos de vista de um palhaço é mais avançado no tempo, pega uma Alemanha já reconstruída como sociedade e explora a influência da religião nessa sociedade. A maior crítica é voltada para as pessoas que apoiavam o nazismo, mandando os próprios filhos à guerra e fazendo crianças de dez anos de idade segurarem bazucas em campos de treinamento. As mesmas pessoas, depois da guerra, mudaram completamente o discurso. Bastou entrar e sair da igreja para enterrar o passado. Se antes tinham o poder de torturar alguém e decidir seu destino com a suástica no braço, agora faziam isso com a religião. Se você não segue os preceitos do catolicismo, você é um pária da sociedade. Mudou o teatro, os personagens se adaptaram. É um livro rico. Enquanto Schnier – o palhaço – remói suas lembranças de vida, conhecemos a situação da Alemanha em um olhar de dentro para fora, o que geralmente só encontramos em documentários. Pontos de vista de um palhaço causou grande impacto na época, fazendo a sociedade repensar o papel da igreja católica alemã.

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Heinrich Böll is in my mandatory reading list. I met my first Böll recently when the publisher Estação Liberdade (Brazil) released The Silent Angel, talking about Germany at zero-hour. The Clown advances in time to tells its story in Germany reconstructed as a society, exploring the religion influence in this society. The main criticism is aimed at people who supported Nazism, sending their own children to the war, forcing children to use bazookas and grenades in training camps. The same people, after the war, completely changed their positions. You go in and out of a church and now you have a different mind. With Nazism they have the power to torture and decide the destiny of others. Now, they use religion to do it. If you don’t follow the catholicism rules, you are a pariah in society. The theater play has changed; the characters are the same, just adapted. The Clown is a rich book. While Schnier – the clown – mulls over memories of his life, we find out about the situation of Germany through an insider look that we generally find only in documentaries. The Clown provoked a great impact when published, making society rethink the role of the German catholic church.

Histórias do Tarô

•October 18, 2008 • Leave a Comment

Histórias do Tarô é uma coletânea organizada pela Tarja Editorial que reúne informações sobre os arquétipos do tarô e contos escritos para cada um deles. São 22 arcanos maiores, com o Louco aparecendo duas vezes, cada uma com uma acepção diferente. Um ponto em comum de todos os contos que percebi foi a dificuldade de ser criativo sem fugir do tema. Lidar com arquétipos de tarô é mesmo um desafio. Como falar do Louco sem explorar a loucura? Como falar da roda da fortuna sem dizer que uma hora temos tudo outra hora não temos nada? Se o tema já é predeterminado, cabe aos escritores chamar atenção com a própria escrita e nisso o livro se sai bem, com destaque para Mauricio Mikola. Um dos comentários que mais tenho escutado sobre o livro é “me identifiquei com várias das situações”. Se pensarmos em um meio termo entre leitores e fãs de tarô, o objetivo da coletânea foi cumprido. O livro traz contos de Richard Diegues e Gian Celli (os organizadores), William Goldoni, Rosana Rios, Sérgio Pereira Couto e da bruxa Eddie Van Feu, entre outros.

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Histórias do Tarô (Tarot Stories) was published by Tarja Editorial and brings information on tarot archetypes plus short stories about them. You’ll find the 22 major arcane, with The Fool appearing twice with different meanings. I have noticed a common point in all the stories: the difficulty in creating without going off-topic. Writing on tarot archetypes is really a challenge. How do you write on The Fool without exploring craziness? How do you talk about The Wheel of fortune without making your character be the luckiest guy and suddenly lose everything? If the theme is already established, the writers have to do their magic and draw the reader’s attention using their own writing process; and on this topic the book is very interesting, Mauricio Mikola’s being one worthy of note. The general comment of readers I have heard is “I can see myself in many situations described on the stories”. When we determine a middle of the way target between general readers and tarot lovers, I think the goal of Tarot Stories was achieved. The book has stories by Richard Diegues and Gian Celli (the publishers), William Goldoni, Rosana Rios, Sérgio Pereira Couto and the witch Eddie van Fue, among others.

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•October 18, 2008 • Leave a Comment

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Scarium Magazine #22

•September 15, 2008 • 2 Comments

Scarium is a Brazilian magazine of horror and fantasy literature that mixes different generations of authors. It’s on its 22nd edition talking about werewolves. I always tought lycanthropes deserve as much spotlight as vampires in literature, and it’s good to know that good writers are getting involved, specially Giulia Moon and Gabriel Boz. Giulia Moon is a expert writer of vampire stories. In Scarium she blends rural and urban aesthetics around the werewolf myth, trying other reversals of roles. Gabriel Boz  wrote a futuristic short story narrated as a blog, up to and including comments, by a warrior werewolf. Other hightlights include Rita Maria Felix, who built a post-mankind world with werewolves in charge; Tibor Moricz, used an old and decadent werewolf; and Mariana Albuquerque who takes the bestiality of body transformation to the spiritual side.

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•September 15, 2008 • Leave a Comment

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Madhouse, Rob Thurman

•September 15, 2008 • Leave a Comment

Finalmente terminei de ler Madhouse. Depois de ler Jim Butcher e Lilith Saintcrow, dois grandes autores de fantasia urbana com mitologia precisa para caber em qualquer cidade, Rob Thurman foi uma surpresa logo na primeira cena, me fazendo reavaliar alguns conceitos sobre o gênero. Em 50 páginas, conheci mais criaturas estranhas do que em todos os livros que li esse ano. Thurman não pensa duas vezes ao reinventar zumbis, criar múmias viciadas em tecnologia e outros seres indescritíveis. Em Madhouse, os irmãos Niko e Cal são como detetives do sobrenatural. Niko é quase um ninja, mas é humano. Cal é mais normal, apesar de ser meio demônio. Não é tão ruim quanto parece. Os dois precisam lidar com um canibal que voltou das cinzas para se instalar em Nova Iorque e fazer a limpa na cidade. Se os outros monstros funcionam como alívio cômico o canibal Sawney Bean é realmente assustador. O livro é repleto de humor, aliás, com um semideus tarado apaixonado por orgias sendo um dos destaques. Você também vai esbarrar com vampiros, lobisomens e anjos caídos. Mas eles são mais figurantes que outra coisa. Ainda prefiro o estilo de Butcher e Saintcrow, mas se você quiser um livro para passar o tempo, Madhouse vale uma olhada.

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I finally finished Madhouse. After reading Jim Butcher and Lilith Saintcrow, two icons of urban fantasy with a mythology engineered to combine with every big city, Rob Thurman was a surprise since the first page, making me review some concepts about the genre. I discovered more monsters in 50 pages than in all the books I read this year. Thurman doesn’t think twice before recreating zombies, high-tech addicted mummies and other indescribable creatures. In Madhouse, brothers Niko and Cal are a kind of supernatural detectives. Niko is almost a ninja, but he is human. Cal is more normal, in spite of being half-demon. It’s not as bad as it looks. Both brothers need to deal with a cannibal that wants to return from ashes to move to New York and cleanup the city, if you know what I mean. While the other monsters work as a comic relief, the cannibal Sawney Bean is really scary. In fact, the books has a lot of funny moments and a perverted demigod who loves orgies is the hot spot. You’ll also find vampires, werewolves and fallen angels, but they are extras. The mojo comes from the reinvented monsters. I still prefer Butcher’s and Saintcrow’s style, buy if you want a book just to get away for a while, Madhouse deserves a second look.

Quintessência, Flávio Medeiros

•September 15, 2008 • Leave a Comment

Quintessência (Quintessence) is an independent book, paid by the author. It’s a blend of science fiction and crime novel that works very well. The main character is a detective investigating a series of murders that look like religious terrorism updated. The future terrorists use an incendiary gel in their own body. As the character investigates the crimes, the reader learns about the world created by Flávio Medeiros, which includes a better version of Internet called Ultranet, holographic tattoos (by the way, holographies are a hit among youngsters) and energy weapons. There is also a flooded Rio de Janeiro but I’ll skip this part. The book handles serious topics without being tacky and entertains with content not with adrenaline rushes. All the necessary components for the beginning of a good crime fiction series.
My review.