Storm Front, Jim Butcher
Quem lê uma série como essa desde o início pode acompanhar a evolução do personagem durante anos. Os fãs sabem a origem de cada cicatriz, como um mago adquiriu esse ou aquele poder, quem é a tal mulher misteriosa que faz o protagonista tremer com a simples menção do seu nome. Esse não foi o meu caso, mergulhei direto em White Night, o oitavo da série, quando decidi pesquisar fantasia urbana. Conheci relacionamentos já intensos, uma estrutura narrativa consagarda, uma mitologia bem desenvolvida. Por isso, a curiosidade e a apreensão eram equivalentes quando peguei o primeiro volume da série Dresden Files para ler (os outros sete me aguardam empilhados na mesa).
Considerando esses fatores, Storm Front foi uma boa surpresa. Todos os elementos da série estão presentes desde o começo, só mudam as percentagens. Aqui, Butcher conta a história de um mago que se assume assim diante dos pobres mortais. Ele é considerado um charlatão por meio mundo, sacaneado até pelo entregador de pizza, mas existem pessoas que realmente precisam de sua ajuda e estão dispostas a pagar o preço. Ou seja, Dresden é um mago freelancer. Um de seus clientes é a tenente Murphy, que trabalha na polícia. Não chega a ser um Arquivo X, mas Murphy trabalha em um setor que investiga casos… estranhos. E o caso que agita o livro é bem hardcore: dois corpos, amantes, encontrados com um grande buraco no peito. Seus corações simplesmente explodiram. Magia negra? Quem seria poderoso o suficiente para explodir o coração de duas pessoas à longa distância?
Storm Front ainda não carrega o ar sombrio de White Night, o humor do Dresden é bem carregado e o do Jim Butcher ainda mais. Enquanto o personagem faz graça de tudo, Butcher consegue tirar piadas até de ataques repentinos de demônios. É quase pastelão, mas tem efeito. A relação de parceria Dresden-Murphy também está bem no início, logicamente, e Butcher explora a dificuldade de se acreditar em um mago. Melhor, de convencer o departamento de polícia que Dresden é um mago de verdade. Murphy acredita nos poderes dele, só não sabe o quanto pode acreditar nele. É uma policial experiente, não divide informações com qualquer um. Não gosta de ser passada para trás e, infelizmente, Dresden precisa ocultar algumas coisas. Sobra motivo para conflitos.
A mitologia também não decepciona. Aqui e ali, entre um crime e outro, o leitor encontra vampiros (um nada glamouroso) alucinados, demônios, orgias (ops!) e, é claro, muito mágica. O jeito que Dresden conta isso ao leitor faz tudo parecer natural dentro do contexto. Não posso adiantar os detalhes para não estragar as surpresas. É tudo muito incipiente, mas vale a pena.
O ponto fraco fica pelos dilemas existenciais. Dresden tem um pé na magia negra. É 99% bom moço, então o 1% de “será que é melhor ser um mago negro” ou mesmo o “não é melhor me mandar e deixar todo mundo se ferrar sozinho?” acabam só ocupando espaço de fim de capítulo.
Para mim, Storm Front teve um sabor especial porque uma parte da história de White Night começa justamente nele, no primeirão. Pelo cinco personagens seguem toda a série. Dresden incluído.


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